MEIO AMBIENTE NA POLÍTICA

A maioria dos políticos faz discurso de exaltação das riquezas naturais do Brasil, porém metade dos candidatos à presidência da república (sendo que 2 deles estão entre os 5 com maior intenção de voto), não contemplam o tema meio ambiente como um capítulo próprio que mereça relevância em seus planos de governo e não apresentam quase nenhuma proposta nesse sentido.
Nosso alimento vem da terra, precisamos de água para beber, para saneamento básico e para abastecer a indústria, assim como a energia, que é proveniente dos recursos naturais. Como o básico que nos mantém vivos pode não ser prioridade? Tivemos recentemente uma pequena amostra de uma situação de desabastecimento com a greve dos caminhoneiros, em uma situação de colapso todo o resto é que se torna secundário. Como seria em uma situação de desabastecimento de água? Não é difícil de imaginar, pois infelizmente já é uma realidade. Recentemente a escassez hídrica chegou a atingir vários estados, inclusive a cidade de São Paulo, o principal centro financeiro do país, onde milhares de pessoas ficaram sem água nas zonas periféricas. Há mais de 40 anos se tinha indícios de que poderíamos chegar a essa situação, mas os governos não agiram. Quando vão começar?
A crise hídrica não foi um fenômeno atípico, ela é consequência da má gestão e da degradação do patrimônio natural, ela está presente e seus princípios geradores continuam se agravando. Como ficaria o sistema de saúde, educação, a economia e a segurança pública em um colapso hídrico? Ouvimos muito que essas esferas são a prioridade, e que meio ambiente é secundário. Mas quando refletimos que para um meio ambiente saudável e equilibrado são necessárias coisas como saneamento básico, combater a poluição e degradação ambiental, revisão de hábitos da população, entre outros, percebemos que a lógica é inversa. É preciso uma visão integrada.

Dentre as doenças mais comuns hoje no Brasil estão o câncer, o diabetes, doenças do coração e aparelho circulatório, doenças respiratórias, alergias, depressão, cólera, dengue, hanseníase, hepatite, leishmaniose, malária e sarampo. A maioria é altamente associada e/ou agravada por fatores como: maus hábitos alimentares; estresse; ansiedade; poluição; falta de exercícios físicos, de saneamento básico e instrução sobre práticas de higiene. Todos esses fatores podem ser atenuados trabalhando a questão ambiental.
Na área rural é possível adotar medidas como a implementação de tratamento de água e sistema de esgoto, adoção de técnicas de agricultura orgânica reduzindo assim a exposição das pessoas aos agrotóxicos, que são relacionados inclusive a abortos e má formações fetais. Nos centros urbanos se pode melhorar a qualidade ambiental e de vida através do aumento de áreas verdes, oferta de atividades ao ar livre nos espaços públicos e outras práticas. Nos Estados Unidos e na Europa, cresce a tendência de criação dos chamados jardins terapêuticos. Eles são construídos ao ar livre ou em átrios e solários dos hospitais e em locais públicos, para serem frequentados pela população em geral, com efeitos significativos na saúde das pessoas e comprovados cientificamente.
Pode-se trabalhar a educação alimentar, levantando informações sobre a origem e processo de fabricação dos alimentos, que quanto mais processados mais recursos naturais empregam em sua produção, mais substâncias químicas nocivas para quem ingere e poluentes disseminados no ambiente, sem falar dos agrotóxicos e seus efeitos para a saúde e meio ambiente. E ainda trabalhar a educação para o descarte correto de resíduos e revisão de hábitos consumo, que são o que direcionam as práticas industriais e de mercado. Só é possível a sustentabilidade com uma população bem instruída, consciente e responsável por suas escolhas e atitudes.
Os governos no Brasil baseiam sua gestão nas crises, trabalham para resolver problemas, mas não para evitar que continuem surgindo. Utilizando a questão da saúde como exemplo, o que caracteriza ter boa saúde é uma baixa incidência de doenças e não o quanto gastamos de dinheiro com tratamentos. Muitos países e planos de saúde perceberam isso e tem priorizado cada vez mais a prevenção de doenças, o que tem se demonstrado muito mais eficaz e uma enorme economia. Contudo a gestão de crise é aplicada de maneira geral no Brasil, desde esperar um museu pegar fogo, uma barragem arrebentar, uma ponte cair, até a água acabar, para só então procurar providências.

Na questão de segurança pública também é possível prevenir através de uma abordagem ambiental. Muitas pesquisas realizadas em diversos países constataram que a presença de as áreas verdes podem ser um poderoso aliado no combate à criminalidade nas cidades, pois incentiva a interação social e gera um efeito calmante e mentalmente restaurador que inibe precursores psicológicos para atos violentos ou que poderiam levar à prática criminosa.

Pesquisadores do Serviço Florestal dos Estados Unidos conduziram estudos, e descobriram que os crimes diminuem, consideravelmente, à medida que se acrescenta espaços verdes às zonas críticas. Em Ohio, um resultado similar vem ocorrendo desde 2010, quando as autoridades locais começaram um projeto para converter terrenos e áreas abandonadas, em espaços verdes. Desde então, o índice de criminalidade despencou. Bairros urbanos com mais espaços verdes têm níveis mais baixos de criminalidade e violência interpessoal, de acordo com pesquisa da Universidade de Washington. O estudo mostra que os moradores de conjuntos habitacionais com árvores e paisagens naturais nas proximidades relataram 25 por cento menos atos de violência doméstica e agressão, bem como cerca de 50 por cento menos crimes totais do que outros edifícios com espaço verde escasso. O Prof. Frances Kuo, da Universidade de Illinois, conduziu uma revisão de vários estudos sobre os efeitos das  árvores, das plantas e do paisagismo nos parques e nas áreas públicas. A pesquisa mostra que áreas arborizadas aumentam a expectativa de vida e o índice de felicidade das pessoas, que têm relações mais felizes e melhor desempenho quando vivem em bairros mais arborizados. Acredita-se que viver perto de espaços limpos, bem cuidados e conservados é essencial para a melhora do  estado físico, psicológico e bem-estar social, criando uma atmosfera mais civilizada, incentivando uma reação em cadeia positiva, interação social e supervisão da comunidade nos espaços públicos. Esse mesmo estudo aponta que pessoas com menos acesso à natureza mostram a atenção relativamente deficiente, função cognitiva baixa, má gestão das questões relacionada a acontecimentos diários e baixo controle do impulso.

Priorizar o meio ambiente é priorizar a saúde, a educação, a economia (que sem a sustentabilidade é ilusória) e a segurança. Tratar o tema como secundário é tratar o contexto geral de forma limitada. Nenhum outro tema afeta diretamente tantas outras esferas como o meio ambiente, que é o pilar sobre o qual construímos nossa sociedade. Precisamos levar o meio ambiente como prioridade em nossas escolhas políticas.
Nicole B. L. Sigaud - Bióloga e Coordenadora Geral
Núcleo Caetê de Educação, Meio Ambiente e Cultura